quinta-feira, 16 de abril de 2009

Passing By...


Gostava ser vazio de sentimentos. Passar pela vida, sem sentir. Sem objectivos, sem ligações, sem dor. Não me venham dizer que não é possível, conheço quem seja. Era tudo tão mais fácil...

Se não tivesse objectivos, contentava-me com o que a vida me desse... sem exigir de mim, dela. Se não fosse ligado a nada, nem a ninguém... não teria raízes. Seria vazio, eu sei. E então?

Quem nunca sofreu por algo, o único “sofrimento” que tem (porque acaba por ser apenas “curiosidade”) é o de querer saber como seria. É como um grande amor. Contam-se pelos dedos quem já amou de verdade. Quem não amou, não sofreu. Pelo menos por isso não sofreu... sofre por não saber como é. Mas é um sofrimento relativo. Dizem que têm “pena”, mas só precisam de uns segundos e já estão bem outra vez. É como que “sofrer por antecipação”. Há quem diga que pode estar acoplado ao “medo”, ao “receio”. Talvez.

Certo dia, disseram-me:

“Cada um de nós tem o amor de uma vida... podes conhecer várias pessoas de uma vida... mas amor só vai haver um... e esse é o teu. A maioria das vezes o amor da nossa vida não é a pessoa que vai ficar connosco até ao fim dos nossos dias. Mas é mesmo assim: custa, enfrentas, ultrapassas e depois recordas sempre com muita tristeza, remorsos, arrependimento até.... mas é o amor da tua vida! Por vezes o amor da nossa vida é alguém com quem a relação já estava "destinada" a não funcionar... mas é ele. Quando nos cruzamos o coração pula, chora, ri, chama... Meu Deus, é um turbilhão de sentimentos, mesmo quando se está de mão dada com outra pessoa!... Não há nada a fazer... Há coisas na vida que não podemos simplesmente dizer- Não quero, obrigado!“.

Assusta a veracidade disto, por isso prefiro questionar primeiro. Ganho tempo. Custa pensar que o amor da nossa vida se possa cruzar connosco, com um menino de três anos e dizer “ Diz olá a este senhor, colega da mamã”. Isto sim, é passar pela vida. Isto sim dói, assusta, faz tremer o chão. Não sou capaz de ter outra vida que não a minha. Isso seria hipocrisia. Iria sofrer na mesma... e para isso prefiro sofrer sozinho, com alguns objectivos, algumas ligações e muita dor.

Acho que já não quero ser vazio de sentimentos. Além do trabalho que me daria agora, já não conseguiria. Portanto só preciso arranjar um plano B. Só preciso que à minha volta exista luta, exista vontade de mostrar. E não me venham com tretas que não somos todos iguais, que as vezes é difícil “mostrar” o que quer que seja, quando até um ladrão sabe que o mais difícil, é esconder..............

 

 

.LittleCharles

Um comentário:

  1. "Em mim foi sempre menor a intensidade das sensações que a intensidade da consciência delas. Sofri sempre mais com a consciência de estar sofrendo que com o sofrimento de que tinha consciência.

    A vida das minhas emoções mudou-se, de origem, para as salas do pensamento, e ali vivi sempre mais amplamente o conhecimento emotivo da vida.

    E como o pensamento, quando alberga a emoção, se torna mais exigente que ela, o regime de consciência, em que passei a vive o que sentia, tornava-se mais quotidiana, mais epidérmica, tornava-se mais titilante a maneira como sentia."

    Bernardo Soares, O livro do Desassossego

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