terça-feira, 31 de março de 2009

Conversa com o Diabo


Há dias falei com o diabo. Irrita-me que o pseudo-caracterizem. Não tinha cornos, não era avermelhado e muito menos usava um tridente. Era, como se diz na gíria, “cor-de-pele”, estatura normal... bem ao “nosso” estilo.

A ideia que temos de criar uma imagem, uma figura onde depositar o nosso medo... não passa de um deslocamento fantasiado dos nossos receios. É tão mais fácil acreditar que o mal está depois da morte, numa personagem criada por nós, do que acreditar que ele está ao virar da esquina, num de nós... as vezes em quem nos é (ou era) mais próximo. Diabo é quem tem a capacidade de atingir, de magoar, de fazer mal (não é esta a definição que vem no dicionário, mas podia ser). Diabo não há um, há vários... mas poucos. Há vários no Mundo, mas poucos na vida de cada um. E porquê? Porque não são todos detentores do poder de atingir, de fazer mal. Só aqueles que, por uma razão ou por outra, marcaram de alguma forma a vida de cada um.

Dói pensar desta forma. Longe de mim querer com isto olhar sempre de lado em meu redor. Simplesmente sei que é verdade. Não pelas melhores razões...! Estes diabos aparecem na nossa vida para nos alertar... para aprendermos. Quando um “eu bem te avisei” substitui um “Adeus” na mais banal das conversas... é quando percebemos que alguém, que para nós não tinha costas, passa a ser um encorpado e corpulento diabo do dia-a-dia. Estes sim é que doem.

Devia existir na vida, uma régua que possibilitasse a medição do “diabo que há em nós”. Uma régua que permitisse medir as nossas atitudes, as nossas palavras...!Mas para tal é preciso que tenhamos altura... e a altura só vem depois do crescimento. Só tinha vantagens... ajudava um juízo final e não tínhamos nós de andar a fazer “juízos” a vida toda.

Isto não é em tom de desabafo... é uma construção frásica, bem floreada, em tom de aviso. Se tivessem feito o mesmo comigo, teria mais anjos na minha vida... e continuaria a acreditar que o diabo aparece depois da morte, tem cornos, é avermelhado e usa um tridente.


.LittleCharles

quinta-feira, 19 de março de 2009

Uma verdade incontornável...


"(...)Quando se é feliz muito novo, a única obsessão que se tem é
aguentar a coisa. Vive-se ansiosamente com a desconfiança, quase 
certeza da coisa piorar. O pior é que as pessoas que se habituaram 
a serem felizes não sabem sofrer. Sofrem o triplo de quem já sofreu.
É injusto mas é assim. 
No amor é igual. Vive-se à espera dele e, quando finalmente se alcança, 
vive-se com medo de perdê-lo. E depois de perdê-lo, já não há mais 
nada para esperar. Continuar é como morrer. As pessoas haviam de 
encontrar o grande amor das suas vidas só quando fossem velhas. É 
sempre melhor viver antes da felicidade do que depois dela."

                                                                                                                     MEC.

Elogio ao Amor...


"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixonade verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

Miguel Esteves Cardoso "In Expresso"

quarta-feira, 18 de março de 2009

"Prisão"



"Mas eles dizem que é pior falar
E vão falando para ninguém ouvir
No fim tu sabes onde me encontrar
Traz coisas para destruir

Quantas linhas mais vou ter de ler 
Das que escreves para me dizer 
quanto medo tens de abrir mão do medo e mergulhar no caos

mas eram culpas e as suas más desculpas
e a quem batemos à porta nesse dia
minha vontade meu amor que bem sabia
diz-me que sonhos tens diz-me o que vês

sou uma prisão de que fujo a que regresso

não vês como é bom dizer eu tentei
quem sabe eu parti quem sabe eu voltei

Mas eles dizem que é pior falar
E vão falando para ninguém ouvir
No fim tu sabes onde me encontrar
Traz coisas para destruir

Sim o que for tem de ser
Sim foi o que eu quis dizer
Pudesse eu querer mais
o que for tem de ser

não faças deixa que aconteça 
agarra no momento para que não desapareça 

detesto fazê-lo mas eu não resisto
nesse momento eu começo a sentir o alívio do ver

SOU UMA PRISÃO DE QUE FUJO A QUE REGRESSO! "

Manel Cruz - "Pluto"

terça-feira, 3 de março de 2009

"LeRoi Moore and Life"


"...please take the time to appreciate the ones you love. 

God bless...".