
Há dias falei com o diabo. Irrita-me que o pseudo-caracterizem. Não tinha cornos, não era avermelhado e muito menos usava um tridente. Era, como se diz na gíria, “cor-de-pele”, estatura normal... bem ao “nosso” estilo.
A ideia que temos de criar uma imagem, uma figura onde depositar o nosso medo... não passa de um deslocamento fantasiado dos nossos receios. É tão mais fácil acreditar que o mal está depois da morte, numa personagem criada por nós, do que acreditar que ele está ao virar da esquina, num de nós... as vezes em quem nos é (ou era) mais próximo. Diabo é quem tem a capacidade de atingir, de magoar, de fazer mal (não é esta a definição que vem no dicionário, mas podia ser). Diabo não há um, há vários... mas poucos. Há vários no Mundo, mas poucos na vida de cada um. E porquê? Porque não são todos detentores do poder de atingir, de fazer mal. Só aqueles que, por uma razão ou por outra, marcaram de alguma forma a vida de cada um.
Dói pensar desta forma. Longe de mim querer com isto olhar sempre de lado em meu redor. Simplesmente sei que é verdade. Não pelas melhores razões...! Estes diabos aparecem na nossa vida para nos alertar... para aprendermos. Quando um “eu bem te avisei” substitui um “Adeus” na mais banal das conversas... é quando percebemos que alguém, que para nós não tinha costas, passa a ser um encorpado e corpulento diabo do dia-a-dia. Estes sim é que doem.
Devia existir na vida, uma régua que possibilitasse a medição do “diabo que há em nós”. Uma régua que permitisse medir as nossas atitudes, as nossas palavras...!Mas para tal é preciso que tenhamos altura... e a altura só vem depois do crescimento. Só tinha vantagens... ajudava um juízo final e não tínhamos nós de andar a fazer “juízos” a vida toda.
Isto não é em tom de desabafo... é uma construção frásica, bem floreada, em tom de aviso. Se tivessem feito o mesmo comigo, teria mais anjos na minha vida... e continuaria a acreditar que o diabo aparece depois da morte, tem cornos, é avermelhado e usa um tridente.
.LittleCharles
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